Fonte: Jornal Comércio da Franca de 06/03/2010
Quase um ano depois de motivar uma acalorada discussão nos microfones da Rádio Difusora de Franca, a flexibilização da jornada de trabalho dos sapateiros voltou a provocar estragos ontem. Desta vez, Paulo Afonso Ribeiro, ex-presidente e atual diretor do Sindicato dos Sapateiros de Franca e região, além de vereador da cidade, se viu diante de um comentário que soou como verdadeiro puxão de orelha. Adi dos Santos Lima, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) estadual, cumpriu agenda ontem em Franca. Entre outros compromissos, ele fez uma visita às dependências do GCN Comunicação e, indagado sobre a possibilidade de um sindicato ligado à Central apoiar proposta do gênero, ele causou surpresa com a resposta dada a Luiz Neto e Fernanda Bufoni, apresentadores do programa Difusora Notícias. “Se a base quer determinado acordo e a direção do sindicato não quer, ele está destoando de sua base”.
Foi o suficiente para colocar Paulo Afonso em uma situação desconfortável. Em março de 2009, o sindicalista esteve no centro de uma discussão com o empresário Mário Spaniol, dono da Carmen Sttefens. Na ocasião, por precisar reduzir a produção da fábrica em razão da queda nos pedidos da empresa, Spaniol propôs diminuir jornada - e composição em banco de horas - para evitar 300 demissões. Conseguiu apoio dos funcionários, mas não do sindicato. Sem este aval, problemas com a Justiça do Trabalho eram certos. O assunto tornou-se debate ao vivo na Difusora. Afonso negou a possibilidade de referendar o acordo sob alegação de não poder ir contra decisão tomada em assembleia geral de trabalhadores e sob orientação da CUT, entidade a qual o sindicato está ligado e que seria contrária a implantação de banco de horas há décadas.
A resposta de Adi ontem reacendeu a polêmica e foi o suficiente para deixar no ar a sensação de que o assunto poderia ter tido um outro desfecho. Em março e abril do ano passado, o sindicato rejeitou o acordo entre funcionários e empresa e tentou influenciar os trabalhadores na porta da fábrica. A ideia era fazer com que eles não avalizassem as intenções da Carmen Steffens. Por dias seguidos, o Comércio retratou eventos do sindicato na porta da empresa e a clara preferência dos trabalhadores pelo acordo proposto. Nem isso demoveu o sindicato. A história terminou com acordos individuais entre empresa e trabalhadores. Houve diminuição de jornada, passaram-se os dois meses necessários e, depois, todos retornaram ao ritmo normal de produção.
PRESSÃO
Ontem à tarde, pouco antes da assembleia dos sapateiros, a reportagem do Comércio da Franca entrevistou Paulo Afonso na sede do sindicato. Ele explicou que Adi dos Santos não conhecia a realidade francana ao responder a pergunta feita na Difusora. Afonso relembrou o caso e enfatizou a acusação de que a Carmen Steffens tentou “pressionar” seus funcionários para que aceitassem o banco de horas. “Houve pressão. Ou aceitam ou 300 serão mandados embora”, afirmou. Disse ainda ter tentado negociar até o fim. “Buscamos entendimento e solicitamos que a empresa nos entendesse. A diretoria do sindicato não está autorizada a assinar banco de horas por termos de respeitar uma posição do congresso nacional da CUT”. Paulo Afonso ainda alegou que uma decisão dos trabalhadores da categoria, que está em documento, impede aceitar decisão contrária. “Na última campanha salarial, dois mil trabalhadores em peso votaram contrários ao banco de horas. Adi não tinha conhecimento da realidade local, por isso passamos a ele”, encerrou Afonso.
NOVO CONTATO
À noite, a reportagem do Comércio conversou novamente com Adi dos Santos. Por telefone (ele deixou Franca no meio da tarde por ter compromisso no ABC), o sindicalista disse não conhecer a proposta da empresa francana citada na oportunidade. “Tenho conhecimento de que empresas tentam manipular acordos prevendo banco de horas. Os trabalhadores não podem ser coagidos”. Por isso, considerou certa a atitude do sindicato, caso a intenção da empresa tenha sido esta.
Apesar de tentar suavizar o desconforto criado, Adi dos Santos admitiu que já existem sindicatos ligados à CUT que aceitaram flexibilizar jornadas e salários. Lembrou que acordos do gênero preveem garantia de empregos e que as empresas se comprometem a repor eventuais perdas em períodos posteriores (quando a conjuntura econômica melhora). Como exemplo, ele apontou o sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos.
O discurso de Adi dos Santos sinaliza a possibilidade de estar ocorrendo uma mudança importante no sindicalismo nacional. Ele mesmo reconheceu ontem a intransigência de outrora. A CUT foi criada em 1983 e se notabilizou com as greves no ABC paulista na década de 80, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva integrou seus quadros. “No final da década de 70 não havia diálogo por parte dos empresários. O movimento sindical precisava responder à altura. Era a truculência e havia necessidade daquele tipo de sindicalismo. Hoje não. Temos de esgotar possibilidades de diálogos”, explicou lembrando que hoje o objetivo é conquistar melhorias, organizar e mobilizar a classe de trabalhadores. Atualmente, o mote é a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O site nacional da entidade retrata a importância do objetivo para os sindicalistas: “Reduz para 40 que o Brasil aumenta”.
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